ESG, LGPD e compliance. A “sopa de letrinhas” anda pela cabeça de empresários e gestores fazendo confusão e gerando muita preocupação. Inescapáveis do ponto de vista da pressão feita por consumidores, investidores e financiadores, a responsabilidade socioambiental e governança (ESG), a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e conformidade (compliance) são mais simples do que parecem. É certo que exigem dedicação, tempo e esforço. A boa nova é que elas estão interligadas, ajudando uma na implementação da outra e, ao fim de tudo, se colocam a favor dos resultados das empresas.

A relação entre ESG e compliance é bem direta. Não há como imaginar governança sem que a empresa aja em conformidade com a legislação e demais regras de conduta do mercado, sejam elas escritas ou tácitas.

De acordo com o sócio-fundador do GSPP – empresa especializada em formatação e comercialização de franquias e empresas -, André Luís Soares Pereira, hoje, as empresas que não se preocuparem com o ESG tendem a perecer.

“O consumidor, não apenas o jovem, já não aceita mais empresas que não se comportam com transparência e ética. Dentro da prática de governança você tem que ter proteção aos dados e compliance. A LGPD – é uma lei nova no Brasil, embasada em conceitos europeus – chegou para proteger o consumidor. Isso independe do porte ou setor de atuação da empresa”, explica Pereira.

Autor do livro “Empreendedorismo no Varejo”, o especialista aponta que a velha questão dos custos é um falso obstáculo e que “fazer o certo, dá lucro”. E que tudo isso só é possível a partir de um propósito sincero dos líderes, decididos, inclusive, a prestar contas à sociedade.

“Ter esses conceitos internalizados significa adotar uma forma de ir para o mercado corretamente. As empresas acham que é caro, mas não é. Tem coisa que não custa nada e outras trazem tantos benefícios evitando desperdícios, tornando os processos mais eficientes, que até diminuem os custos. Vejo que não só as grandes corporações, mas também os pequenos empreendimentos estão se preocupando, se espelhando nos grandes. Vejo ‘a vida melhor no futuro’. O varejo, por exemplo, que é ainda muito amador, está se profissionalizando. Digo que a perfeição não existe, mas a cada dia de treino estamos mais próximos da eficiência plena”, avalia o autor.

Para o diretor e líder de Serviços de Riscos e Governança do Grupo Crowe Macro – umas das principais empresas de auditoria e consultoria do País -, Peterson Ruiz, é importante que empresários e gestores pensem que a empresa é uma só, que não existe uma para cada exigência vinda do mercado, portanto a visão precisa ser holística e as estratégias, integradas.

“Falar em sustentabilidade é falar em como uma empresa pode crescer sem destruir os recursos ou canibalizar o mercado. Compliance é ter todas as ferramentas de controle, monitoramento e mensuração funcionando e a LGPD está ligada à responsabilidade, inclusive, social. Imagine uma empresa de saúde com informações que podem tornar algumas pessoas mais aptas ou menos aptas a receberem crédito ou a conquistar um emprego. Compliance é estar alinhado também às responsabilidades diante da sociedade. É importante que tudo isso esteja inserido na modelagem de negócio. As empresas têm que influenciar o mercado em que atuam”, defende Ruiz.

Para ele, ESG e LGPD estão contidos no compliance. O ESG ajuda a pensar a empresa de maneira estruturada, construindo oportunidades de negócios. A prestação de contas é o final da cadeia.

“Essas ferramentas foram criadas para mudar a cultura, o comportamento e isso fazer com que o negócio cresça dentro dessa cultura de compliance responsável. Estamos falando da evolução das relações entre as empresas. Fazer a coisa certa é algo que faz tudo funcionar melhor. Dá pra gerar resultado empresarial gerando valor para as pessoas. As regras criadas não são isoladas, elas fazem parte de um contexto. No Brasil, a desigualdade é o grande desafio. Como falar em propósito, compliance e sustentabilidade para os mais frágeis? Então as empresas precisam pensar em como contribuir com as questões que estão mais próximas. Pensar em microcosmos, gerando a equalização das condições das pessoas que ali estão”, pontua o diretor e líder de Serviços de Riscos e Governança do Grupo Crowe Macro.

Quem pensa holisticamente já está na frente

Compliance, LGPD e ESG fazem parte da mesma construção, com o ESG na base e o compliance como telhado. A LGPD está dentro dessa casa. A afirmação é da advogada especializada em Direito Digital e LGPD do escritório Juliane Cavalini Advogados Associados, Juliane Cavalini.

“Quando falamos no ESG, é na parte da governança que puxamos o viés da LGPD. Ela é uma lei que já traz na sua essência o compliance. A lei é para todos e não quer saber sobre os danos causados, mas sim, o que está sendo feito para proteger os dados coletados. Isso já traz conformidade. A desproteção já é razão para a empresa ser penalizada. A multa é menos importante que a perda de reputação perante toda a sua rede”, afirma Juliane Cavalini.

Isso transfere, segundo a advogada, às empresas a obrigação de fazer a educação das suas equipes para conseguir implementar as políticas de governança. As empresas menores estão sendo cobradas pelas maiores. É o conceito de corresponsabilidade que envolve toda a cadeia produtiva.

“Quem consegue pensar holisticamente já está na frente. É uma caminhada longa. O Brasil já está atrasado e não dá para fazer tudo de uma hora para outra. A partir do momento que as nossas empresas não tratam os dados de maneira confiável, elas não podem ser contratadas por empresas de fora”, pontua.

Segundo o professor de Governança Corporativa e Compliance da Fundação Dom Cabral (FDC), Dalton Sardenberg, as relações entre consumidores e empresas e entre empresas são, cada vez mais, globais e os regramentos vêm para fazer com que o diálogo seja possível e a competição minimamente mais justa.

“Na verdade, esses conceitos não são novos, porém a sociedade agora está se apoderando deles. Para cumprir o ESG existe uma série de regulações que vão apertando as empresas. O compliance é estar em conformidade com todas as regulações, inclusive com os compromissos que a empresa assume perante os seus públicos. Uma das leis que surgiu impactando muito as empresas é a LGPD. Hoje estamos expostos o tempo todo. Por isso os detentores devem zelar pelos dados das outras pessoas. Então é preciso olhar para tudo isso em conjunto, buscando a integração”, destaca Sardenberg.

Uma pesquisa realizada pela FDC, em parceria com a Grand Thorton e a XP Investimentos, perguntou como as empresas abertas estão vendo o ESG. No quesito “quem mais pressiona por ações ESG”, as respostas foram, de certa maneira, surpreendentes. Em ordem decrescente: os próprios acionistas, conselhos, clientes, investidores institucionais. E a busca de recursos já não é o principal motivador. Perguntadas sobre os principais benefícios para buscar o ESG, as respostas foram: valorização da marca, melhoria da reputação, redução de riscos, atração de talentos. A atração de recursos apareceu em sétimo lugar.

“A sociedade está reagindo à ideia de que para um ganhar, outro tem que perder. Para que as empresas continuem existindo elas precisam de um ambiente minimamente saudável e dinâmico. A FDC tem o ‘Hands-On compliance’, que é um programa gratuito com o propósito de capacitar pequenas organizações em compliance vinculadas às cadeias de produtores. Já fizemos várias turmas de fornecedores da CCR , do Ibracem (Instituto Brasileiro de Certificação e Monitoramento), Pacto Global e Fundamig (Federação Mineira de Fundações), por exemplo. Como uma escola de negócios temos a missão de ajudar a fortalecer o mercado. O sentido da corresponsabilidade protege as empresas, as cadeias produtivas, o mercado e, por fim, a sociedade global”, completa o professor da FDC.

Fonte: Diário do Comércio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.